HIP HOP CRIA: PROJETO IDEALIZADO PELO COLETIVO FORMANDO MENTES COLETIVAS, LEVA OS 5 ELEMENTOS DA CULTURA PARA DIFERENTES ENTIDADES DE BAURU E REGIÃO
O projeto que tem como público alvo crianças e jovens vulneráveis, impactou 8 entidades no ano de 2025 e terá sua final no dia 22 de fevereiro, na Aldeia Indígena Kopenoty em Avaí-SP

por Andrezza Marques
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O Hip Hop Cria realiza oficinas que tratam cada elemento da cultura Hip Hop – DJ, Breaking, Graffiti, MC/Rap e o Conhecimento, como uma disciplina sociocultural e de formação profissional. O Conhecimento é apresentado como o pilar central, uma analogia frequentemente usada para ilustrar como ele sustenta os outros elementos como uma base, ou os une como um teto que unifica a estrutura da cultura. Tendo sua primeira edição lançada em 2021, o projeto é uma poderosa ferramenta de emancipação e engajamento sociopolítico, especialmente para a comunidade negra e periférica do interior de São Paulo.
Fundamentado pela lei nº. 10.639 de 2003, que define como obrigatório o ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana nas escolas públicas e privadas de todo o Brasil, o projeto faz da utilização do Hip Hop em instituições de ensino, convivência e fortalecimentos de vínculos e outros espaços educacionais, uma forma de contribuir para a implementação desta lei, integrando a cultura afro-brasileira e de periferia à rotina dessas instituições.
“A ideia do Hip-Hop Cria surge com dois objetivos, tanto de democratizar a cultura Hip-Hop levando ela para as crianças em escolas, em organizações da sociedade civil que atendem elas no contraturno escolar, tanto no sentido de profissionalização da classe artística dentro do Hip-Hop”, declarou o DJ e coordenador do projeto, Vinicius Pereira.
Assim, compreendendo esse movimento como um meio de educação, profissionalização e representatividade da juventude, bem como reforçando o Hip Hop como auxiliador do processo pedagógico e de formação, o coletivo Formando Mentes Coletivas (IFMC) vêm fortalecendo desde a primeira edição o programa com oficinas cada vez mais estruturadas para crianças e adolescentes de Bauru e região.
Quem cria o H2 Cria?
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A 4ª edição do projeto que aconteceu de janeiro a fevereiro de 2025, foi financiada pela emenda cultural parlamentar da deputada estadual Monica Seixas em parceria com a Secretaria Estadual de Cultura e viabilizada pela Sociedade Amigos da Cultura - SAC em Bauru, recebendo assim o título “Nossa Cultura Viva - O Hip Hop Cria". “Um apoio que fez toda a diferença na realização”, segundo o coordenador e MC, Vinão Mandinga.
Além de educar e inspirar, o projeto também valoriza os agentes culturais e produtores de Hip Hop. Os oficineiros, que são artistas como Bboys e Bgirls, grafiteiros, DJs, MC's, fotógrafos, pesquisadores e poetas, são devidamente remunerados, reconhecendo e incentivando o seu papel vital na transmissão de conhecimentos e na perpetuação dessa cultura.
O Hip Hop Cria é desenvolvido pelo coletivo Formando Mentes Coletivas, que atua desde 2013 em Bauru. O coletivo tem uma forte trajetória de engajamento nas áreas de política, cultura, movimento negro, LGBTQIAPN+ e também atua nas frentes de educação, comunicação e mídia, pesquisa, assistência social e a própria cultura Hip Hop.
Vivência, criatividade e pertencimento: assim são as oficinas
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Em 2025, o projeto alcançou um impacto significativo, envolvendo sete Organizações da Sociedade Civil (OSCs) e a Fundação Casa, promovendo oficinas para crianças e jovens de 6 a 18 anos. No total, cerca de 232 crianças participaram ativamente das atividades, que também envolveram famílias, educadores sociais e diversos agentes da comunidade. Ao longo do projeto, mais de 30 oficineiros atuaram diretamente na realização das oficinas, compartilhando conhecimento e experiências com os participantes.
As ações ocorreram em diferentes regiões de Bauru, contemplando instituições como Acaê Beta, Crescer, Fundação Casa, Girassol, Iprespa, Casa da Criança, Caná e Portas Abertas. Foram 48 horas de intensa troca cultural, contando com a participação de mais de 30 produtores culturais, artistas e apoiadores ligados à cultura Hip-Hop.
O projeto levou três dias de aprendizado e vivência Hip Hop para as entidades que visitou, com pelo menos uma dupla de oficineiros em cada. Nesses espaços, crianças e jovens dos 6 aos 18 anos puderam entender e praticar melhor os elementos MC/rap, graffiti e breaking e fazer breves apresentações com o qual mais se identificavam.
Com os MC’s, as crianças foram estimuladas a brincar com as palavras, sua fonética e sentidos. Entendendo mais sobre a postura dos Mestres de Cerimônia e a história do RAP, lápis e caneta na mão, elas eram orientadas a desenvolver construções poéticas, a partir de reflexões sobre suas vivências cotidianas e sentimentos, e apresentar suas próprias narrativas no papel.
Nas oficinas de graffiti, os destaques eram as paredes e latas de spray. Com os oficineiros sugerindo e demonstrando técnicas diferentes em cada traço, os jovens exploraram as ferramentas e colocaram os aprendizados em prática. As telas foram os muros das entidades, que recebiam diferentes grafismos em estilo de bomb, pixo, dois formatos distintos de escrita com os sprays e outros desenhos, sendo os nomes dos artistas o que mais foi registrado nas paredes. Depois, o nome da instituição, junto ao nome do projeto, era estilizado em cima das “assinaturas” nos muros, pelos oficineiros.
Por fim, nas oficinas de break, as crianças entenderam como as batalhas de dança substituam batalhas violentas e se jogaram nos passinhos cheios de ritmo, coordenados pelos oficineiros, enquanto a música rolava.
“A gente fica indignado no bom sentido em ver o quanto as crianças querem estar presentes e participando, principalmente nas rodas de Break. Acho que com essas oficinas ajudamos a formar mais uns 80 Bboys e Bgirls por aí”, ressalta Andrews Bronca, ator, MC, empreendedor e um dos Bboys e oficineiros no projeto.
Em todas as oficinas, além do hip hop como máxima, a alegria das crianças que se sentiam vistas, ouvidas e importantes, apesar de enfrentarem situações de vulnerabilidade em outros momentos do seu dia a dia, foi um sentimento em comum.
Um dos pontos destacados por Natália Barbe, coordenadora geral da Associação Comunidade em Êxodo (ACAÊ), entidade contemplada com o projeto, foi a pluralidade do grupo. “Isso pôde trazer para os nossos jovens uma nova visão de mundo, de inclusão, de um pertencimento, o que é extremamente importante. O Hip Hop Cria traz uma visão diferenciada do que é a periferia. Do quanto o Hip Hop transforma a vida das pessoas através da música, através da arte, através da rima”, avalia.
A partir das oficinas, as crianças puderam ser protagonistas enquanto aprendiam, sendo incentivadas a se expressarem. As atividades trabalharam oralidade, concentração, vocabulário, expressão corporal, memória e afetividade.
Vida longa ao Hip Hop Cria: Final da 4ª edição e expectativa
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O evento final, será realizado na Aldeia Kopenoty no dia 22 de fevereiro de 2025, e conta com uma expectativa de público de 400 pessoas, reunindo moradores da aldeia, crianças das OSCs, artistas e oficineiros, consolidando o impacto e a relevância do projeto na comunidade. E gerando uma grande expectativa, como conta Vinão.
“Levar as crianças a uma aldeia indígena, uma terra demarcada, um lugar onde o Hip Hop também está brotando,é muito especial. A colonização, ela não deve entrar, onde a gente luta contra ela, onde a gente resiste a ela. A aldeia como esse espaço de resistência e potência para nossa final é um marco”, pontuou.
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