BAURU INVESTE R$ 40 MI EM POÇOS ARTESIANOS ENQUANTO EMPRESAS DE ÁGUA MINERAL EXPLORAM AQUÍFEROS DA REGIÃO
Enquanto o poder público banca obras emergenciais, empresas privadas extraem água dos mesmos aquíferos para vender em garrafas – e a crise hídrica se aprofunda.

Enquanto o poder público banca obras emergenciais, empresas privadas extraem água dos mesmos aquíferos para vender em garrafas – e a crise hídrica se aprofunda.
BAURU/SP – A Câmara Municipal de Bauru aprovou nesta semana um polêmico empréstimo de R$ 40 milhões para a perfuração de novos poços artesianos, alegando a necessidade de reforçar o abastecimento hídrico da cidade. No entanto, especialistas alertam: a medida pode ser um tiro no pé enquanto grandes empresas de envase de água mineral seguem explorando os aquíferos da região com pouca regulação – e sem pagar a conta justa por esse recurso natural. O Paradoxo da Crise Hídrica Enquanto Bauru se endivida para cavar mais poços, conglomerados do setor de água mineral – como os que operam em São Pedro, Águas de Santa Bárbara e outras cidades próximas – extraem milhões de litros por ano dos mesmos aquíferos que abastecem a região.Essas empresas, muitas beneficiadas por incentivos fiscais, comercializam a água em garrafas plásticas, vendendo a preços altos um recurso que, em tese, é público.
"É um absurdo ver a população pagar duas vezes: primeiro, com o dinheiro dos impostos que bancam obras emergenciais, e depois, no supermercado, quando compra água engarrafada de empresas que exploram os mesmos mananciais que estão secando", especialista em recursos hídricos.
Conflitos Já Acontecem na Região Em Mineiros do Tietê, moradores já protestaram contra uma grande engarrafadora que, segundo eles, reduziu a vazão de nascentes locais. Em Dois Córregos, poços particulares abastecem indústrias enquanto bairros periféricos enfrentam rodízio. Agora, Bauru repete o modelo: em vez de regular o uso industrial da água, opta por perfurar mais poços – que, no futuro, podem também ser explorados por empresas privadas.
Risco de Privatização Velada
O temor de ambientalistas é que, após a perfuração, esses poços públicos sejam terceirizados para operação privada via contratos de "parceria". Foi o que aconteceu em cidades como São José do Rio Preto, onde a concessão de poços levou a tarifas mais altas e à priorização do abastecimento industrial em detrimento de bairros pobres. "É a lógica neoliberal: o Estado se endivida para fazer a infraestrutura, mas quem lucra são as empresas", critica a advogada ambiental Luana Torres.
O Caso de Itu: Remunicipalização Após Colapso Um exemplo emblemático ocorreu em Itu, que enfrentou uma crise hídrica histórica em 2014, com racionamentos que chegavam a 5 dias sem água. Na época, o serviço era operado pela Empresa Brasileira de Saneamento (EBS), controlada pela iniciativa privada. Após pressão popular e falhas no abastecimento, a prefeitura rescindiu o contrato em 2015 e remunicipalizou o serviço em 2017, criando o SEMAE (Serviço Municipal de Água e Esgoto). "A remunicipalização permitiu investimentos em redução de perdas e ampliação da rede, mas o trauma da crise persiste", explica o ex-vereador de Itu João Cury Neto. Dados do SEMAE mostram que o índice de perdas caiu de 47% (2015) para 34% em 2023, mas a cidade ainda depende de poços profundos – situação que ecoa os riscos que Bauru enfrenta.
Alternativas Existem, Mas Falta Vontade Política Enquanto municípios como Botucatu e Marília investem em reúso de água e proteção de mananciais, Bauru ainda não regulamentou a cobrança pelo uso comercial da água ou limites à exploração industrial. Projetos de lei para taxar grandes consumidores, como engarrafadoras, estão parados desde 2020. O que Dizem os Envolvidos?
A Prefeitura de Bauru afirmou que os novos poços são "emergenciais" e que "não há planos de privatização".
Já as empresas de água mineral ouvidas pela reportagem alegam que "atuam dentro da lei" e "geram empregos". Enquanto isso, o Aquífero Bauru segue sob pressão. E a conta, como sempre, fica para o contribuinte.
Comentários (0)