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A vida pelo Lucro: o que o caso do assassinato do CEO de uma seguradora norte-americana tem a ver com o sucateamento da saúde ao redor do mundo?

Afinal, saúde é um direito ou mercadoria?

A vida pelo Lucro: o que o caso do assassinato do CEO de uma seguradora norte-americana tem a ver com o sucateamento da saúde ao redor do mundo?
A vida pelo Lucro: o que o caso do assassinato do CEO de uma seguradora norte-americana tem a ver com o sucateamento da saúde ao redor do mundo? (Foto: Reprodução)

por Andrezza Marques


Caso Luigi Mangione, o suposto justiceiro da saúde 


Recentemente, o caso envolvendo o assassinato de Brian Thompson, CEO da seguradora norte-americana United Healthcare trouxe à tona questões profundas sobre o impacto social das dinâmicas corporativas no setor de saúde ao redor do mundo.


O CEO da empresa do grupo UnitedHealth, 8ª maior empresa em receita do mundo, foi morto a tiros em 4 de dezembro de 2024 na cidade de Nova York. Entre diversas teorias da conspiração do que teria motivado o crime cometido pelo suspeito Luigi Mangione, um jovem de 26 anos, fica evidente que o assassinato tinha o propósito de evidenciar uma frustração com a privatização da saúde nos EUA.


Segundo fontes citadas pelo The New York Times, além das evidências físicas, a polícia encontrou uma redação de três páginas escritas a mão por Mangione,  onde ele criticava duramente esse sistema de saúde, acusando-o de priorizar o lucro em detrimento do bem-estar das pessoas. Também foi descoberto um caderno com supostos registros detalhando o planejamento do crime. 


Enquanto os detalhes ainda são investigados, o caso suscita reflexões e até fascínio sobre o jovem que “tomou uma atitude” frente à crescente especulação e privatização da saúde mundial.


Aumento da especulação e privatização: sucateamento da saúde 


O setor de saúde, especialmente em países que adotam sistemas predominantemente privados, têm enfrentado um dilema: como equilibrar a qualidade do serviço e a dignidade da vida humana com a pressão por maximização dos lucros? 


A privatização da saúde muitas vezes resulta no aumento de custos para o usuário final e na diminuição da acessibilidade devido a priorização de indicadores financeiros, como o aumento da sinistralidade,  que refere-se à relação entre os custos gerados por sinistros, ou seja, eventos cobertos por seguros como acidentes, doenças ou indenizações, e o total de prêmios arrecadados pela seguradora. 


Por exemplo, se uma empresa de seguros arrecada R$ 1 milhão em prêmios e paga R$ 600 mil em indenizações, a sinistralidade é de 60%. Esse índice é usado para medir a eficiência financeira de uma seguradora, sendo que uma sinistralidade alta pode indicar custos excessivos e uma baixa pode sugerir maior eficiência ou prêmios elevados. 


Bem como a ociosidade de recursos que representa o uso insuficiente de capacidades disponíveis, como equipamentos, infraestrutura e mão de obra, em relação ao seu potencial total. Um exemplo seria um hospital com leitos disponíveis que não estão ocupados devido à baixa demanda. A ociosidade gera custos sem retorno financeiro, reduz a eficiência, mas em alguns casos pode ser estratégica para atender picos de demanda.


 Ambos os conceitos estão relacionados à busca por equilíbrio entre eficiência, controle de custos e atendimento às necessidades, sendo este último deixado de lado em detrimento às anteriores, o que frequentemente leva ao sucateamento de estruturas e serviços.


No Brasil, o aumento exponencial nos preços dos planos de saúde se tornou uma realidade, especialmente para idosos, cujos reajustes foram recentemente limitados ao teto de 6,91% pela Agência Nacional de Saúde (ANS). Enquanto isso, a precarização do SUS tem levado ao aumento das filas de espera, mortes evitáveis por falta de atendimento adequado e desassistência em comunidades vulneráveis. 

Alcançando 51,4 milhões de beneficiários, segundo o Instituto de Estudos de Saúde Suplementar (IESS), o aumento dos planos de saúde foi impulsionado especialmente pelos planos coletivos empresariais, que agora representam 71% do mercado e totalizam 36,7 milhões de beneficiários. Entre agosto de 2023 e 2024, esses planos cresceram 3,4%, o equivalente a 1,2 milhão de novos vínculos, em grande parte devido à recuperação do mercado formal de trabalho no Brasil​

Em termos de custos, os reajustes têm sido impactados pela alta sinistralidade e pela inflação médica. Mesmo usuários de sistemas privatizados têm enfrentado dificuldades, incluindo recusas de cobertura e tratamentos negados, evidenciando que, para muitas seguradoras, o lucro está acima da vida dos segurados.




O case Unimed como exemplo local da vida pelo lucro


A Unimed registrou um aumento de 22% em seu faturamento consolidado no Estado de São Paulo, entre abril de 2023 e março de 2024. Esse resultado inclui os segmentos de Saúde, Odontologia, Vida, Previdência e Ramos Elementares (como seguros empresariais e residenciais). O faturamento total da Seguros Unimed alcançou R$ 3,4 bilhões no período. O segmento de Saúde sozinho cresceu 24%, gerando R$ 2,9 bilhões. Outros segmentos, como Odontologia e Vida, apresentaram um aumento conjunto de 12%, representando mais de R$ 485 milhões​, de acordo com o site Saúde Digital News e JRS.

Além disso, a Unimed investiu significativamente em infraestrutura e modernização, em teoria para melhorar a qualidade dos serviços. No 39º Simpósio das Unimeds do Estado de São Paulo, realizado em julho de 2024, destacou-se a colaboração entre cooperativas para ampliar o alcance de seus produtos e oferecer soluções abrangentes para os clientes, mas o que na prática não funciona exatamente assim. 

Casos como o do influencer que morreu aos 33 anos de idade esperando por vaga na UTI, mesmo com o convênio particular da cooperativa, se somam para dar o lugar de destaque à Unimed, como um dos planos de saúde com mais reclamações na ANS. No Índice Geral de Reclamação de 2018 oito unidades da empresa aparecem entre as 20 operadoras com mais reclamações. 

O que mostra que, apesar do aumento no faturamento e dos “investimentos” em modernização e assistência, os beneficiários dos planos privados enfrentam uma série de desafios como o aumento nas taxas mensais, redução da cobertura de procedimentos essenciais e descredenciamento de hospitais. Fatores que têm resultado em situações críticas, com pacientes tendo que recorrer ao SUS após se verem desassistidos por planos privados, enquanto o mesmo passa cada vez mais por um desmonte intencional. Além disso, a concentração de mercado nas mãos de grandes grupos operacionais reforça a lógica de lucro em detrimento da qualidade e equidade no atendimento.




Por que defender o SUS não é interessante para o capitalismo?


O SUS é considerado um dos maiores sistemas públicos de saúde do mundo, atendendo de forma universal e gratuita toda a população brasileira. Ele se destaca em diversas áreas, como transplantes de órgãos e combate a doenças negligenciadas, sendo reconhecido internacionalmente como um modelo de inclusão e eficácia.


A realidade, porém, é alarmante: em 2023, segundo o  Conselho Nacional de Secretários de Saúde (CONASS), o SUS registrou mais de 15 mil mortes relacionadas a atrasos ou falhas no atendimento, reflexo direto do subfinanciamento crônico e da falta de investimentos. O desmonte do sistema público favorece o avanço de um modelo que trata a saúde como mercadoria e não como um direito.

Esse desmonte tem sido evidenciado por cortes expressivos no orçamento. Em 2024, o orçamento do Ministério da Saúde sofreu uma redução de R$ 22 bilhões em relação ao ano anterior, impactando áreas essenciais como atenção básica, programas de vacinação e compra de medicamentos de alto custo.  Cortes que refletem uma tendência de diminuição proporcional do investimento em saúde pública no Brasil, que representou cerca de 4% do PIB em 2023, valor inferior à média global de 6% recomendada pela Organização Mundial da Saúde (OMS)​.

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Sucatear para explorar: quem quer a saúde privada quer a morte dos trabalhadores  

A defesa do investimento em sistemas privados de saúde em detrimento do SUS geralmente baseia-se em argumentos de eficiência e qualidade. Planos de saúde e hospitais privados tendem a incorporar tecnologias mais rapidamente, oferecer estruturas modernas e atender de forma personalizada, aumentando a satisfação do paciente. Além disso, sistemas privados promovem maior competitividade, o que pode impulsionar melhorias no atendimento e atrair investimentos no setor. No entanto, vale ressaltar que a substituição do SUS por um sistema privado teria impactos significativos, principalmente para as populações mais vulneráveis, que dependem exclusivamente do sistema público.​

Defender o SUS significa priorizar a saúde como um direito fundamental, garantindo que ninguém fique para trás. Em tempos de crises sanitárias, como a pandemia de COVID-19, o SUS provou ser essencial para salvar vidas e mitigar desigualdades. Além disso, investimentos no Complexo Econômico-Industrial da Saúde fortalecem a capacidade do Brasil de produzir medicamentos, vacinas e tecnologias de forma autônoma, reduzindo a dependência de mercados internacionais.


Portanto, o sucateamento de sistemas públicos em favor de modelos privatizados não apenas compromete o acesso à saúde, mas também alimenta desigualdades sociais. A defesa e fortalecimento do SUS, bem como sua ampliação para o mundo todo é urgente e fundamental para garantir que a vida humana não seja tratada como um número em uma planilha de lucro. 

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